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O uso da história poderia ser considerado
como um tipo de interpretação transicional, pois as histórias
com suas metáforas permitem ao paciente a iniciativa de apreender
o que estiver ao seu alcance e de acordo com o seu tempo interno.
Através delas aspectos mais primitivos podem ser revividos, principalmente
por adultos que não puderam ter experiências com o lúdico,
com o brincar e que por esta razão apresentaram falhas no desenvolvimento
da primeira infância e necessitam de um ambiente de sustentação
para terem a possibilidade de uma retomada no desenvolvimento. Deste
modo, podem encontrar um sentido para suas experiências, integrar
partes dissociadas do self, facilitando o processo de elaboração.
Esse pode ser um recurso que propicia um novo meio de expressão
para superar conflitos e facilitar o processo psicoterápico,
porém, deve-se levar em conta a estrutura de personalidade do
paciente já que as histórias possibilitam o encontro com
camadas mais profundas do inconsciente e seus conflitos, tornando-os,
em certos casos, conscientes e suportáveis. Por isso, o uso de
histórias não é indicado no início do tratamento,
quando ainda o psicoterapeuta não tem dados da estrutura de vida
do paciente.
Assim, é possível a utilização de histórias
infantis no processo psicoterápico não só com crianças,
mas também, com pacientes adultos.
A escolha da história a ser contada é baseada no material
trazido pelo próprio paciente e também nos sentimentos
despertados em nós (psicoterapeutas) por este material, pois
os especialistas ao contarem uma história devem estar atentos
ao que o paciente busca, qual o tipo de história a ser contada
e o momento adequado para isto.
Para que a história seja efetivamente útil, deve conter
a angústia básica do paciente, seus mecanismos de defesa
e o tipo de relação objetal por ele utilizado, tendo-se
em vista o seu momento de desenvolvimento no processo psicoterápico.
O uso de fábulas (histórias com a presença de animais)
é recomendado, com a ressalva de não utilizar a moral
que sempre existe ao seu final, pois ao utilizar a moral, saímos
do espaço potencial "de interpretação do paciente".
Se o paciente não tem capacidade simbólica, sua utilização
não é possível, pois a história está
no campo transicional e exige condição de simbolização.
Se o paciente só consegue ter a apreensão concreta, com
incapacidade de apreender o que é abstrato, outro nível
de trabalho é necessário.
É importante o psicoterapeuta observar se a história,
conto ou fábula, apresentada ao paciente, tem revelações
que ultrapassam os limites deste paciente. Há muito simbolismo
(por exemplo, no conto) que só pode ser elaborado psicologicamente,
conforme a necessidade dos pacientes. Estes limites devem ser respeitados.
Assim, o contexto psicológico da ação não
é imposto, o paciente é livre para interpretar a história
como quiser e puder.
Seria oportuna uma pesquisa para verificar em qual das estruturas de
personalidade o paciente se encontra, pois, por exemplo, pacientes com
estrutura de personalidade obsessiva não seriam indicados para
utilização de histórias, por não terem facilidade
de fantasiar, pela rigidez obsessiva, por não gostarem do que
os surpreenda, já que a história pode surpreender por
ser uma forma diferente de comunicação.
Pacientes com estrutura narcísica parecem não aproveitar
muito a história porque podem considerá-la um ataque,
como se algo tão simples como uma história pudesse fazê-los
perder a grandiosidade, e reagem, com defesa, com desprezo.
Outras situações com reservas ao uso de histórias
são os casos de pacientes adultos muito infantilizados, com dificuldade
de abdicar dos aspectos e funcionamentos infantis. São os eternos
"Peter Pan", que querem ir para a "Terra do Nunca"
para nunca ter que crescer. Neste caso as histórias podem reforçar
a infantilidade e impedir o paciente de viver a realidade e assumir
a vida adulta.
Porém, apesar de algumas restrições, em muitos
casos as histórias podem ser utilizadas como um espaço
em que é possível enriquecer a realidade com imaginação,
através da simbolização, do processo criativo do
paciente; cabendo ao psicoterapeuta utilizar seu próprio inconsciente,
intuição, seu conhecimento técnico e suas vivências
para chegar a uma comunicação significativa durante o
processo de psicoterapia.
Para aprender a ouvir uma história é necessário
um silêncio, uma quietude interior, para que possa ser ouvida
de forma diferente, metaforicamente e não apenas literalmente,
levando-se em conta que o significado mais profundo das histórias
será diferente para cada pessoa, e diferente para a mesma pessoa
em vários momentos de sua vida, dependendo de seus interesses
e necessidades do momento.
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HISADA, Sueli - A Utilização de Histórias no Processo
Psicoterápico: Uma Proposta Winnicottiana, Editora Revinter.
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